”A tempera de uma alma é dimensionada na razão direta do teor de poesia que ela encerra” (Horácio Quiroga)

sábado, 30 de janeiro de 2016

Versos Livres em Tercetos Unos (I)

Sobre Lágrimas...

Lágrimas I

As lágrimas secam;
Metabolizando-se, tornam-se cristais.
Os sonhos, todos eles, se sucederão pela eternidade.


Lágrimas II

Lágrimas...
Químicas, biológicas, transcendentes.
Não obstante o inferido da ciência, sempre algum mistério as cingem.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Pelo mar...

Que me ensinou a nadar
              Foi um arrais de traineira,
Não foram peixinhos do mar
              Nem sargento da Costeira.

Capitão de longo curso:
Vá tocando seu navio,
Vá cumprindo seu percurso,
Enquanto o sol está frio.

Quem me ensinou a nadar
              Sabia das coisas do mundo,
Pois hoje quem é do mar
              De caminhão foi calungo.

Capitão de cabotagem:
Vá tocando seu navio,
Vá cumprindo a viagem,
Enquanto o sol está frio.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Vaso Barrica

Na velha varanda
               Azulejada e clara,
Certo dia foi colocado,
Sobre a mesinha baixa
               De angelim pedra,
Um grande vaso barrica
               Com o pescoço curto e
               Uma larga boca redonda.

Um vaso com flores, flores,
Muitas flores cheio de flores;
Transbordante, colorido, perfumado.
Antúrios, lírios trombeta, dálias
               (Brancas, rosas, vermelhas),
Jades, alfazemas e quaresmas.

Vinham verão, outono e inverno,
Na primavera se mudava a posição
               Do jarro florido na varanda.
Begônias, girassóis pequenos, cravos
               (Brancos, amarelos, laranjas),
Helicônias, jasmins e macelinhas.

 Por vezes o vaso rachava,
Até se partia em cacos
               Espalhados no chão.  
Mas logo era reposto
               Com grande presteza,
Por um outro vaso barrica
               Com o pescoço curto e
               Uma redonda boca larga.


Um vaso com flores, flores,
Muitas flores cheio de flores;
Transbordante, colorido, perfumado.
Hortências, alamandas, petúnias
               (Brancas, vermelhas, lilases),
Hibiscos, margaridas e melissas.

Vinham, outono, inverno e primavera;
Pelo ano novo se mudava a posição
               Do jarro florido, na varanda.
Copos-de-leite, rosas sempre-vivas
               (Brancas, amarelas, vermelhas),
Magnólias, gardênias e lilases.

Um dia, já esquecido,
Com flores apodrecidas,
O jarro se quebrou.
Fatigado, fragmentou-se,
Espalhando os cacos limosos.
Mas já não havia na casa
               Quem, com ligeireza,
Outro jarro repusesse.

domingo, 24 de janeiro de 2016

Um jardim

Há quanto tempo não vejo
               Aquele pedaço de muro,
Orgulho de uma vizinha
               Que dele cuidava, zelosa,
Com carinho extremado.

Ali vicejavam as flores:
Rosas, hortênsias, cravos,
Begônias e sempre-vivas;
Tão coloridas e frescas,
A mitigar uma alma aflita.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Nossas almas

(Sobre a poesia "Pousa um Momento" - Fernando Pessoa - 12/12/1919)

Quando me sinto assim envolvido
               Pelo fulgor verde-mar das tuas íris,
Não percebo somente teu olhar
               Mas também o calor da tua alma,
Que me anuncia tantas maravilhas
               E, generosa, me abarca por inteiro.

Então minha alma tão atenciosa
               Também te envolve em carícias
               E te inflama o coração carente,
Fazendo-te vibrar, energia pura.
E assim, tão repleta desse viço,
Notas que as estrelas te invejam.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Batuque

Tu levas o atabaque
               (Teu rumpi da Bahia)
               Que eu levo o pepelê;
Tu  atacas num batuque
               Que eu espero o quequerequê.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Mistérios

A vida, considero, não é tão misteriosa assim,
Nós, é que tanto nos deixamos surpreender.
E como surpreendemo-nos com excessiva facilidade!

Para tudo há explicação, cabível e certeira;
Se buscarmos nas terminantes leis da criação,
Teremos, certamente, todas as respostas pretendidas.

Um viver consciente, buscando o conhecimento
               De nós mesmos e do universo que nos circunda,
Pode nos revelar maravilhas e sepultar todos os mistérios.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

Cá, em mim

Do teu corpo em púrpura guardo a doçura
               (Pérola rara de inigualável pureza),
Que se refletirá nas noites dos meus dias.

Do teu coração generoso guardo a ternura
               (Diamante raro de inigualável fulgor),
Que se refletirá na mansidão das minhas noites.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Presença

Tu, aflita, não percebes,
Mas quando parto
               Deixo-me completo em ti

Se notares bem,
Poderás adivinhar-me
               Feliz, em teus braços.

Poderás ainda sentir
               Meu coração pulsando,
No ritmo das tuas carícias.


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Pretéritos

Perfeito:
    Eu expus
        Tu assentiste
            Ele concordou
                Nós pactuamos
                    Vós avalizastes
                        Eles tremeram

Imperfeito:
    Eu perseverava,
        Tu desistias,
            Ele hesitava.
                Nós ruíamos,
                    Vós fugíeis,
                        Eles motejavam

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Incisivo

Então, que parlapiê é esse?
Essa conversinha miúda
              Que tu vens agora me trazer
              Não me desmancha o topete;
Não me diz nada, esse parangolé.

Eu quero o meu,
Quero o que tu pegaste
(E não pagaste) e pra já.
Não tens? É isso que me dizes?
Pois consegue de imediato!

Te dou até às ave-marias,
Mas é só, disso não passa.
Se tu não sabes, ouve:
A minha Solingen tem bom fio
              E o talho é fundo e enfeia.

Trago-a aqui no bolso,
Queres ver, queres?
É uma Filarmônica legítima;
Tem o cabo de madrepérola,
Muito limpo, muito limpo...

sábado, 9 de janeiro de 2016

Metamorfose

Eu nasci passarinho!
Virei gente só depois,
Acho que aos seis anos,
Quando senti, assustado,
Que me doutrinavam.

Lembro-me ainda
              Da agonia das noites
              Com o voo proibido,
Da agonia das amarras,
Que me partiam as asas.

Dias difíceis aqueles,
Nos quais me tornei, forçado,
Um humano qualquer,
Com uniforme azul e branco
              E alguns cadernos incólumes.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

São Petersburgo

Sussurraram-me um dia desses:
Moscou fica logo ali, filho!
Na segunda rua à direita,
Duas quadras após a esquina.
A senha certa é “São Basilio”.

Nem liguei, pois em meu peito
              Já se derrama São Petersburgo,
Cortada pelas águas do Neva;
Mas não a Leningrado de hoje,
Senão a de Fiódor Dostoiévski.

Esta sim me comove o espírito,
Seja na densidade das memórias
              Ou na angústia do jovem Ródion;
Seja no humanismo do príncipe
              Ou nas dores de Makar e Varvara.

Me encanta esta São Petersburgo
              De tão densos personagens.
O Neva, as pontes, os parques,
A chuva, a neve, a miséria visível;
Cinzelando meu coração imaturo.

Nota: Quando essa prosa poética foi escrita a cidade de São Petersburgo, ainda vivia sob o nome de Leningrado. 

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Cumplicidade

Ah, tanto tempo, tanto tempo!
E a noite continua exibindo
              Aquelas nossas velhas estrelas.

Se olharmos atentamente,
Ainda podemos observar
              Aquele cintilar de cumplicidade.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Amor e amores...

O amor nunca se vai;
Permanece latente nos corações,
Disponível e franco,
Pronto para se manifestar
              Com toda sua intensidade.

Alguns amores se vão,
Mas esses, deixe-os ir,
Deixe-os volatilizarem-se,
Pois decerto não te servem,
Senão, fazem-te mal.

domingo, 3 de janeiro de 2016

Grande mistério

Por vezes sinto volatilizar-me
              E navego tantas milhas, etéreo,
Até encontrar-te... à espera.

Tu percebes quando chego
              E te envolvo com minha energia,
Deixando-te lânguida e doce.

Nesse momento brilham as estrelas
              E a brisa branda traz seus perfumes,
Fazendo-nos unos e definitivos.

sábado, 2 de janeiro de 2016

Chuva

Precipitam-se tantos...
Milhares, milhões, incontáveis.
Pequenos cristais líquidos,
Frescos e leves,
Que farão brotar a vida...

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

Preferências

Não quero riqueza,
Prefiro a certeza.

Não quero patrão,
Prefiro o bufão.

Não quero cinema,
Prefiro o poema.

Não quero tutela,
Prefiro a nutela.

Não quero sindicato,
Prefiro o barato.

Não quero polícia,
Prefiro a notícia.

Não quero sirene,
Prefiro a E.T.N.

Não quero inamps,
Prefiro as vamps.

Não quero palácio,
Prefiro o prefácio.

Não quero negócio,
Prefiro o ócio,

Não quero o DOPS,
Prefiro os Pops.

Não quero S.A.M.D.U,
Prefiro o Bangu.

Não quero pão,
Prefiro o sabão.

Não quero missa,
Prefiro a preguiça.

Não quero apartamento,
Prefiro o momento.

Não quero doença,
Prefiro a sentença.

Não quero a sorte,
Prefiro a morte.