”A tempera de uma alma é dimensionada na razão direta do teor de poesia que ela encerra” (Horácio Quiroga)

terça-feira, 31 de maio de 2016

Breve despedida

Vou-me que já tarda!
Mas em meu corpo carrego
              Os vestígios das tuas unhas,
O cheiro doce do teu sexo
              E os resíduos escaldantes
Do teu delirante prazer.
Fragmentos tão deliciosos
              Que carrego prazeroso
E que manterão acesos
              Todos os meus desejos,
Até o ansiado reencontro.

sexta-feira, 27 de maio de 2016

Preferida

Observa bem:
Olha discretamente
              Mas com toda atenção.
Reparaste nela?
Naquela de verde,
Vestidinho muito curto
              E decotado – devassado,
De um verde água
              Já meio fora de moda.

Observaste seus modos?
Discretos, não? E finos.
Dizem que frequentou o Liceu,
Mas não concluiu o normal.
Largou tudo no segundo ano
              E, te digo, tinha boas notas.

Segundo me contaram
              Foi influência do cinema.
Um filme americano,
Desses que mostram
              Os costumes deles,
Com aquelas perspectivas
              Prenhes de brilhos,
Prazeres muitos
              E fortuna fácil.

Notaste bem na dama?
Pois saiba que agora é
              A preferida do conventilho,
Chega por volta das quatro
              E não tem hora para largar.

No outono vai à Paris.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Perdição

Ah! Já agora te sinto
              Plenamente minha,
Intensa, sôfrega,
Fundindo-se a mim
              Toda deliciosa e franca.
Ah! Perdição.

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Crepúsculo de outono

Em alguns dias de outono,
Enquanto a tarde se despede
              E o sol, cumprida sua missão,
Vai se recolhendo lentamente
              Por trás das montanhas baixas,
Que já se fazem quase negras,
Podemos absorver do poente
              Uma policromia fantástica:
Vermelhos quase violáceos
              Iluminados por luzeiros de ouro,
Riscados por um laranja avivado
              E salpicados de fulgores de prata.

Tudo isso vai se processando
              Em ritmadas e suaves mutações
              Que vão revelando novos tons;
Matizes lilases e acinzentados,
Anunciando nesse lusco-fusco
              A noite que chega, quase adulta,
Antecedida por uma lua cheia
              E insinuações estrelares,
Que derramam uma luz azulada
              Enchendo de brilho e claridade
              Tudo quanto nossa vista alcança
              E nos extasiando diante da vida.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Afronta

O extremismo é uma afronta ao princípio da diversidade,
.
Seja lá de que natureza forem um e outro.
.
É uma violência que nasce da ignorância e por ela é fomentada.

domingo, 15 de maio de 2016

Inverno

Como são medonhas estas noites
              Que amanhecem em julho;
O vento é uma navalha nas frestas,
Assoviando no quarto gelado
              E rugindo possesso nos coqueiros,
A chuva sacode, incerta, sem rumo,
Pingos cortantes e frios, que regelam.

O sol com toda sua energia
              Sucumbe ao espesso das nuvens,
Densas, negras, quase gelo,
Não aquece, não ilumina.
Com o astro prisioneiro nos nimbos
              A vida se recolhe, sombria, triste,
Anoitecendo precoce nas tardes curtas.

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Privilégio

Como são privilegiados estes meus dedos;
Tão acostumados às curvas do teu corpo,
Podem desenhá-lo na densa neblina da noite
              Ou modelá-lo com os cristais das estrelas.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Viagem

No amanhecer dos tempos,
Naqueles fulgores,
Eles se fundiram,
Matéria e energia.
Então, unos,
Lançaram-se ao desconhecido
              Buscando o eterno.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Oportunidade

O tempo, inexorável, no pêndulo do carrilhão,
Não te permitiu viver, intenso, aquele exato momento,
Mas, agora, te concede a oportunidade de revivê-lo.

terça-feira, 10 de maio de 2016

domingo, 8 de maio de 2016

Intensidade

Fartaria com sobra
              Dez tomos de grossa lombada,
A dissertação precisa
              De todas as sensações sentidas
              Durante um beijo furtivo.

sábado, 7 de maio de 2016

Lamento

Eu que versejo sem rima,
Ah, pobre de mim!
Sem métrica e sem ritmo
              Minha estrofe fica pobre
              E pobres dos meus versos,
Que sem rima se perdem
              Nas ricas rimas de tantos.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Zombaria

Sempre que eu passava sonolento
              Pela calçada daquela rua sombrosa,
Um burro magro, amarrado e triste
              Erguia a cabeça, me olhava e sorria.

Na ida e na volta, sempre o sorriso;
Até que desconfiei daquele burro,
Me olhando com os dentes a mostra.
Sorria ele para mim, ou ria de mim?

Até que certa manhã de chuva fina,
Me dei conta que o burro pastejava
              No caminho que eu fazia
              Rumo à pequena igreja do bairro.

Me veio, então, a certeza lancinante;
O riso era de escárnio, pura zombaria.
O burro ria, solerte, da minha agonia.
Até que um dia morreu (talvez de rir).

domingo, 1 de maio de 2016

Toques

Completa-me saber
              Que quando minhas mãos te tocam,
Teu corpo inteiro reverbera desejos
              E dos teus lábios doces e generosos,
Escapam tantos sussurros sem pejos.