”A tempera de uma alma é dimensionada na razão direta do teor de poesia que ela encerra” (Horácio Quiroga)

quinta-feira, 30 de junho de 2016

Destroços

Ah, os amores!
Destroçados a quatro mãos,
Acumulam-se eivados de rancores nos corações humanos.

terça-feira, 28 de junho de 2016

segunda-feira, 27 de junho de 2016

Sexta-feira

Não sei bem que horas são
(Meu roscoff parou às nove),
Mas observando a minguante,
Já bem altinha e clareante,
Podem ser duas, duas e meia,
Talvez  três, três e quinze,
Hora de levantar acampamento
              Por que a vida não acaba hoje

Ainda que me agrade sobremodo
              O sopro delicado da noite fresca,
Que leva para além da rua deserta
              Meus vapores etílicos,
Impregnados desse rum ordinário
              Que tanto me aviva a alma,
Vou pedir a conta e picar a mula,
Que a hora é essa e o sono chega.

Todavia já é madrugadinha,
Não há mais lotação no ponto.
No táxi vou deixar uns vinte e sete;
Acho que vou a pé, nesse fresquinho.
Mas a pé os meganhas me arrocham
              Ali pela curva da ponte velha
              E levam a minha grana e o meu roscoff.

Melhor é negociar na pracinha
              Uma corrida com o Dino, o pai,
Pois com o Dino filho é doloroso.
Talvez saia por vinte, vinte e dois;
É isso ou perder cento e trinta
(o salário minguado da semana)
              Para os meganhas degenerados
              E ainda levar uns sopapos doídos.

Espera; olha que já me esquecia!
Posso muito bem passar a noite
              Na casa da Zulmirinha, minha prima,
Recém desquitada, que mora logo ali,
Depois da subida do Cine Palácio.
Mas Zulmirinha deve estar dormindo
              E a insone tia Bilu não me recebe,
Temerosa do apetite da filha.

Vou é logo falar com o Dino velho,
Entrar no De Soto cinqüenta e um
              E cochilar no estofado amaciado,
Tratado com benzina pelo florentino.
Dez minutos na estrada e pronto;
Me safo dos meganhas cretinos
              De tocaia na curva da ponte velha,
              E durmo tranqüilo, pois já é sábado.

domingo, 26 de junho de 2016

Tormenta

No quebra mar, colosso de rochas,
Quebram-se as ondas; o sopro do tritão.
Na areia da praia, a mulher, tormenta pura, trescala seu cio!

sábado, 25 de junho de 2016

Uma grade

Uma grade,
Uma simples grade;
Como muitas outras por aí.

Cada uma delas,
Qualquer que seja,
Com sua conotação própria.

Somente quem pode se colocar
              Nos opostos dos seus lados,
Isento de preconceitos
              e receptivo ao novo,
Pode compreender com exatidão
              todos os seus significados.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Vira-lata

Quatro patinhas miúdas,
Um rabo curtinho e grosso,
Pelos baixos, castanhos avermelhados.

Encimando: focinho atento,
Orelhas longas e adelgaçadas,
Olhinhos tão vivos, brilhantes e claros.

Animal, fiel aos seus instintos,
Esse ser, por natureza, irracional,
É amado mais do que alguns racionais o são.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Montadores e montarias

Até à Catalunha sofreu,
Sob o Sonhador Cavaleiro,
O frágil  Rocinante;
Ele e o burro do gordo Escudeiro.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Em uma certa corte

O Valete de Paus
              Não tinha da Dama de Ouros
              O que ela dava ao Rei de Espadas.
O coringa divertia os três.

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Caos

Tardes cinzentas,
Noites tenebrosas;
A humanidade segue, ignava, rumo ao caos na madrugada.

domingo, 19 de junho de 2016

Meganha

Meganha do cão:
Trevoso, nevoento,
Achacador, assassino.
O que atira por trás
(Na cabeça, na nuca),
Covarde, puto.

Tens filhos? Esposa?
Pai e mãe? Avô e avó?
Eles sabem de ti,
Da tua vida bandida?
Sabem que roubas, matas?

E tua ex-professora,
Uma senhora serena?
E teus colegas de infância,
Já adultos, honrados?
O que eles pensam de ti?

Diga-me: a tua consciência,
O que ela te diz?
Será que a calas, por hábito,
A tiros ou a pancadas,
Ou já a poste em almoeda?

sábado, 18 de junho de 2016

Redenção

Intoxicada em seus próprios vapores,
Dobra-se, tíbia, a humanidade.
No entanto, a cada amanhecer nos é concedida 
              A prerrogativa da remissão por nós mesmos.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Timidez

O Sol, recém saído das nuvens,
Banhou teu corpo de dourado;
Mas não se demorou, tímido, fugiu.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Cio lunar

A minguante, no cio,
Quase desmaiada
              Na noite de abril,
Caçando entre estrelas,
De longe me viu.

Lua morna, fêmea,
Tão excitada estava
              Que nem me pediu.
Deitou-se ao meu lado,
Estremeceu e partiu.

terça-feira, 14 de junho de 2016

Definitiva

A flor (indiferente aos meus olhares)
            Tão finita em sua beleza,
É definitiva,
            Se considerarmos todo seu teor subjacente.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

Ato de criar

Em algumas noites, muito especiais,
Um ou outro privilegiado insone
              Pode observar espectros voantes,
Envolvidos por névoas multicores.

Somos nós, os poetas, matéria vivente,
Que nessas noites peculiares, sobrevimos
              Volatilizados, colorizados, afortunados,
Integralmente envolvidos no ato de criar.

domingo, 12 de junho de 2016

Distância

O que entendemos como longe
              É o oposto do perto, ou não?
Não há distância quando o afeto está sediado nos corações.

sábado, 11 de junho de 2016

Desejo

Quero-te assim: intensa e linda.
Ardente, explodindo em desejos
              Que te incendeia o corpo nu.

Quero ter-te integralmente em mim
              Devorando-me o corpo por inteiro,
Fazendo-me flutuar em mil vapores.

Quero amar-te toda, vorazmente,
Sentir teu corpo todo vibrante
              E partihar contigo este meu prazer.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Leniência coprológica

O mundo se acabando em copro
              E você nem obrou ainda;
Ou obrou e nada disse, linda?
Andiamo, merda troppo!

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Paixão

Para que resistir? Para que?
Tolice não me entregar por inteiro,
Tão intensamente quanto puder
              E embriagar-me com teu perfume
              Que encanta, acalma e excita.

Mergulhar nas delícias anunciadas
              E sentir palpitar teu corpo macio,
Ungido com óleos sublimes,
Correndo meus dedos trêmulos
              Pelas curvas altivas dos teus seios.

Possuir-te, enfim, na tarde calma
              Que suscita tão fortes paixões.
Amar-te de forma tão intensa
              Que teu prazer transcenda,
De forma absoluta, o plano físico.

E na noite recém chegada e morna
              Poder, em vigília, velar teu descanso,
Qual sentinela atento no minarete
              E admirar teu corpo despido,
Repousado entre o azul dos lençóis.

quarta-feira, 8 de junho de 2016

Mutações

Dormi paulista
              (golpista),
Acordei baiano
              (insano),
Almocei gaúcho
              (um luxo),
Morri Mineiro
              (matreiro).

terça-feira, 7 de junho de 2016

No Planalto Central

O síndico do Condomínio,
Com domínio da matemática,
Vai gerindo as duas casas:
Uma, de tolerância;
A outra, geriátrica.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Posições

Nem sempre
              Os dois lados de uma moeda
              Estão lado a lado

domingo, 5 de junho de 2016

Posses

Meus mundos e fundos
              Cabem num prato raso,
Assim, por acaso.

Tudo caro, mas...

O alimento é caro,
A água é cara,
O gás é caro,
A energia é cara,
O gás é caro,
A banda larga é cara,
O celular é caro,
A saúde é cara,
O transporte é caro,
A gasolina é cara,
O vinho é caro,
A paeja é cara;

Mas eu encaro,
Minha cara.

sexta-feira, 3 de junho de 2016

quarta-feira, 1 de junho de 2016

O Manfarrico e o Corvo

Vez por outra eu parava
              Frente a uma bela livraria
E observava, encantado,
Através dos vidros limpos,
Aquelas estantes coloridas,
Todas abarrotadas de saber.

Mas, tímido, não entrava;
Temia que minhas chinelas,
Tronchas e empoeiradas,
Maculassem aquele chão
              Tão cândido, tão limpinho,
Pisado por sapatos elegantes.

Certa vez, quando lá cheguei,
Era uma terça-feira chuvosa,
Ao olhar as cobiçadas estantes
              Vi um sujeito todo empoado,
Com seu olhar cavo e rutilante,
Consultando, ligeiro, os títulos.

Sob um dos braços, observei,
Trazia um exemplar novinho
              De “O Poder das Idéias”,
O segundo escrito pelo Corvo.
Pensei: até mesmo o diabo
              Precisa de alguma inspiração.