”A tempera de uma alma é dimensionada na razão direta do teor de poesia que ela encerra” (Horácio Quiroga)

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Procura

É noite, é escuridão,
Mas seus olhos perscrutam,
Penetrantes e vivos,
A procura de algo.

Você mesmo não sabe
              O que procura, mas procura,
Tendo plena consciência
              De que irá encontrar.

sábado, 28 de novembro de 2015

Introspecção

Olhe para além da sua dor,
Surpreenda-se com um restinho
             Qualquer de alegria
             Que ainda vive em você.

Olhe bem lá dentro de si,
Observe quantas cores há, vivas,
Pulsantes, luminosas,
Exigindo serem libertas.

Deixe-se levar aos cirros.
Arrebate-se nesta contemplação,
Tão mágica quanto livre,
E encontre-se, venturosa.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Cotidiano

Madrugada ainda, solitário,
O homem embarca as tralhas
E, pés descalços na areia fria,
Lança o frágil casco encardido
De encontro às ondas mansas
Quebrantadas no baixa-mar.

Num salto incerto, de través,
Assume, solene, o comando
E, remo nas mãos calosas,
Arroja a carena azul e branca
No rumo preciso da estrela sul,
Ainda acesa no róseo celeste.

Manhã chegada, vistos da praia,
Barco e barqueiro, tão distantes,
São respingos no horizonte,
Cumprindo a lida cotidiana
Da fatigante pesca solitária,
Seu parco sustento, até a morte.

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Ladrão casual

Senhoras e senhores: Booooa noite!
Em Brasília, já são dezenove horas
               (Em Paraopeba do Sul, também);
Alguém pode ter acertado na águia!

Sem quaisquer terceiras intenções,
Acreditem, pois falo muito sério,
               Roubei a bomba de flit amassada
               Do sorridente mestre de cerimônias.

A Miss Brasil me olhou enviesado
               Mas a trapezista sorriu e me piscou um olho.
Acho que Lyndon Johnson me odeia,
Ao contrário, a Mia Farrow me ama.

Então o pau comeu na casa de noca
               (nunca soube se era francesa a polaca).
O anão trajando belo Kurta Pajama de pura seda,
Assumiu o microfone e declarou: Ame-me ou deixe-me!

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Incitação

Ah, quantos mistérios há na morte!

Uns morrem para sempre;
Desfragmentam-se, desintegram-se.
Esses não mais serão!

Outros morrem para renascer:
Sublimam-se, acrisolam-se.
Esses voltarão a ser!

Sê aquele que encanta, surpreende!
Que, com a firmeza dos sábios,
Aniquila todos os preconceitos
E funda um novo e proveitoso existir.

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Distorções

Ah, Quanto se engana o homem,
Quando, tão egoísta, desconhece
As mais altas concepções contidas
No afeto, na gratidão, no perdão,
Na generosidade e na caridade.

Quando não aplica esses conceitos
Da maneira mais equivocada,
O homem, refém do seu egoísmo
Não irradia essas altas concepções
Ao mundo circundante, onde vive.

Torna-se assim uma ilha sombria,
Isolada, que retém, inúteis, em si,
Tudo aquilo, que por gratidão, teria
Que repercutir, não só aos homens,
Mas a todas as coisas da natureza.

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Inata beleza

Nessas marés, nesses ventos,
Agitam-se corações marcados,
Pulsando suas expectativas
              Em ansiados ciclos de calmaria,
Onde os espíritos abrandados
              Pelos frescores das manhãs,
Descobrem-se e harmonizam-se
              Diante de toda a inata beleza
              Que a vida, generosa, oferece.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Um Rio

O rio da minha infância
              Era muito largo.
A aventura de um mergulho
              Pedia reflexões,
              Consultas à razão;
E a razão, árbitra serena,
Reprimia o impulso.
Mas não suprimia, juvenil,
O incitamento perdurante.

E, por experimento,
Deu-se o ato,
Em recém-nascida manhã,
Quando, à primeira luz,
As caramboleiras exibiam
              Diáfanos frutos
              E coleirinhos ligeiros
              Saudavam o dia
              Em longos tui-tuis.

Tibum!
Primeiro o frio barrento,
Depois, olhos abertos,
A túrbida corrente.
Então, a luta feroz:
Membros frágeis,
Peito delgado,
Na peleja molhada
              Sem testemunhas.

A cada minuto passado,
A cada metro vencido,
Mais próxima estava
              A oposta margem,
              O prêmio pretendido,
              A recompensa da ousadia.

Os minutos passados,
Os metros vencidos,
A tarefa árdua
              Cumprida enfim;
A margem atingida e
              O triunfo desfruído.

A volta foi seca, pela ponte,
Pois que a ousadia
              Tinha certos limites
              E se impunha.

Hoje, quando o observo,
Este rio, o de agora,
Já não me parece
              Tão largo assim.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Sábio silêncio

Sábio Silêncio

O sábio cala-se meditativo
              Quando o imbecil, néscio,
Vomita sua vã verborragia

              Toda ela desprovida de valor.

Mais vale o silêncio do sábio,
Que ignora aquela verbiagem
              E limita-se a suspirar, entediado,
Diante da estupidez humana.

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Pitagórico

Se você pegar um qualquer
             Inofensivo triângulo retângulo,
Tenha muito, muito cuidado.
Por trás daquela aparência
             Reta e angular há o teorema.
Sim senhor, o teorema.
Pitagórico, imudável, definitivo;
Desnudando a hipotenusa,
Revelando os catetos,
Manipulando os quadrados,
Os senos e os cossenos,
Numa relação inexorável.

domingo, 15 de novembro de 2015

Perdas e ganhos

Vivendo entre tantas perdas,
Perdemos, perdemos e perdemos.
Mas, por inevitáveis que são,
             Não há o que possamos fazer,
Senão dela tirarmos boas coisas.

As recordações de doces momentos,
O afeto manifesto nos corações,
A caridade conscientemente praticada,
O tempo entendido e usado como vida,
E os sentimentos em nós cultivados.

Ganhar na perda seria um antagonismo,
Não fossem tantas as possibilidades
             Que as leis da criação, amplas e generosas,
Colocam sempre a nossa disposição,
Para operarmos essa transformação.

sábado, 14 de novembro de 2015

Revelações

O poeta vive seu sonho
E, livre, em cada palavra
Revela sua alma.

E lê, e ouve, e vê.
Sua razão, atenta, pondera
E lhe determina o caminho.

Ele, observador,
Percebe as sutis minúcias
Expressas em cada letra.

Mas não pode interferir
Na ordem vital do universo,
Ainda que tanto quisesse.

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Vermelho e Branco II

Quando tão somente
          Um frágil fio de vida
          Ainda me restar,
Quando, inexorável,
O vendaval dos tempos
          Tiver varrido todas as lembranças,
A recordação de um certo símbolo,
Vermelho e branco,
Lá em um cantinho bem recôndito,
Desenhará em minha face
          Um luminoso sorriso de prazer.
E assim será; até o fim!

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Cheiro doce (Moleque das frutas)

Olha, olha, o moleque das frutas!
Tem sapoti, tangerina e jenipapo,
Tem mamão, araçá e manga-rosa.
Mas hoje não tem caqui-estrela!.

Tem aí laranja da terra, garoto?
Tem não senhora: mas tem graviola!
Tem limão galego e banana-figo,
Tem lima da pérsia e manga-espada.

Hei menino, cadê as jabuticabas?
Tá no tempo não, dona: tem pitanga!
Hoje também tem fruta-do-conde,
Jambo graúdo, cajá-manga e goiaba.

Mas amanhã trago figo maduro, dona!
Trago também mexerica e carlotinha.
Amanhã você vem por aqui, fruteiro?
Venho sim, e trago amora madurinha!

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Propósitos

A cada amanhecer sempre se renasce,
No todo ou em parte, não importa a fração.
Valem mesmo os propósitos, contínuos,
Cuidando para que renasçam os estímulos
No processo consciente da tua evolução.

domingo, 8 de novembro de 2015

Enlevo

Quando, de repente, perceberes
Tua alma incandescente,
Teus olhos cintilantes e vivos,
Teus lábios com um sorriso novo,
Sentirás um incontido desejo
De cantar, de dançar, de brilhar.
Então poderás sentir, extasiada,
Que estás plena, frágil e feliz.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Opção etílica

Já há algum tempo que venho
               Percebendo bem no meu íntimo
               Umas estranhezas vergastantes,
Uns comichões em minha alma
               Que me incomodam sobremodo.

Sinto uma vontade incontrolada
               De me questionar sobre coisas
               Que dizem respeito ao meu ser.
De me desvendar integralmente,
Revirando cada cantinho interior.

Mas, não considero conveniente
               Revolver todo o lodo decantado,
As emanações podem ser letais
               E não é prudente um risco a toa.
Melhor é beber algumas vodcas.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Incógnito

A trapezista, num salto mortal,
Errou o tempo e caiu.
Mas quem se feriu, coitado,
Foi o vendedor de flores,
Que há muito vivia, incógnito,
No coração da moça.

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Recolhimento

Em noite de tormentas
          Me recolho.
Enquanto o vacilante lume
          Incendeia uma página amarelada,
Meus olhos passeiam atentos
          Sobre linhas e linhas e linhas.
Inútil busca de respostas
          (Uma lógica qualquer)
          Que me apazígue a alma
          Até que minhas pálpebras,
          Vencidas,
Permitam insinuar-me
          Na incoerência dos sonhos.

domingo, 1 de novembro de 2015

Excludente

Seis moirões que vida já foram,
Onde a seiva percorria as fibras
E, vital, cumpria seu desígnio.

Vida vegetal, colosso de verdes
Respirando para nos servir,
Num altruísmo genético e eterno.

Seis fieiras de aço, trançado, frio.
Com nós metálicos regulares
E tantos espinhos ferintes.

Matéria sem vida, inorgânica.
Trefilada em complexos processos
E com serventia tão excludente.

Conjunto tão sinistro e inerte,
Com seus propósitos egoístas
Separando e excluindo vidas.